Árido coração

Árido coração

Quando a mala é desfeita
Quando a resposta é em vão
Quando a casa é vazia:
Árido coração

Quando a hora é de partida
Quando semana que vem não vem
Quando o chá esfria
Árido coração

Quando és pela foto e só
Quando o deserto tá na alma
Quando só tem gengibre em pó
Árido coração

Quando o trapo é feito de gente
Quando o laço vira nó
Quando a presença já não preenche
Árido coração.

E quando elx chorar?

Cuidar de si é um desafio. Da infância à fase adolescente/adulta, somos cuidados. Nossa mãe dá comida, remédio, atenção, bronca, cobrança, roupa limpa, resolução pros problemas. Nosso pai às vezes cuida, mas sempre só olha o que já é suficiente para entendermos o recado. A escola cobra notas. Pelo menos a dos outros. A minha só existia. E de certa forma vocês acabavam cuidando da matéria. Hoje me dei conta de que estou cuidando de mim. Estava fazendo comida e me veio isso. E como é estranha essa tarefa. Como é difícil lidar com alguém tão exigente, oscilante e reclamão. Como é trabalhoso me deixar satisfeito. Quando estava trabalhando, queria estar na universidade. Agora estou. Mas vivo vendo editais de concurso. Queria um resultado rápido pros meus investimentos. Sempre trabalhei e todo começo de mês recebia uma recompensa pelo meu empenho. Estudar é um investimento à longo prazo. Quero que além de notas meu esforço vire cédulas, e muitas de preferência. Estou aqui, mas queria estar lá. Como lidar com essa falta de lugar permanente? Como me fazer entender que é pra ficar e que escolhi, aqui e agora? Que eu preciso cuidar da minha vida, realizar todas as tarefas envolvidas nela, pois minha mãe não está aqui nem pra esquentar o leite sem nata. Eu reclamo por não ter um namorado. Outro dia estava pensando: o cara que é exatamente como pensava que devesse ser meu namorado, me paquera, gosta de mim, e eu nem dou uma chance pra nós dois. Pensando no porquê de sermos assim, me vem à cabeça que o tempo todo estamos fugindo de quem somos, com todos os defeitos, qualidades e odores. Que estar noutro lugar, querer ser outra pessoa, e sentir tédio nesse mundo tão sem graça, só são sintomas da nossa falta de habilidade de sermos cuidadores de si. De nos “auto-ninar” frente aos “choros” da vida, até dormir. E essa falta, com certeza decorre da ausência de contato que tivemos com nós mesmos. Somos desconhecidos, e por isso queremos alguém que nos conheça tão bem. Queremos terceirizar essa tarefa. É mais cômodo. Mais arriscado também. Parece clichê, mas suportar a própria companhia e se conhecer são exercícios que resolvem sua solidão, sua monotonia e sua falta de vontade de levantar da cama. Pelo menos eu penso. Hoje meus pais ainda estão vivos. Mas é só um estado. Logo passa. Com o passar do tempo, minha emancipação será plena. Serei oficialmente meu próprio regente, e ai nem olhar sugestivo de aprovação ou reprovação haverá mais. É triste, mas honesto.

Eu não nasci pra ser boneca

E nem pra ouvir desaforo na rua, no mercado, na faculdade ou onde quer que seja!

Eu não vou deixar de usar meus vestidos pra não chamar a atenção.

Não vou deixar de usar meu batom vermelho

Não vou deixar de andar na rua, não vou deixar de estar sozinha

Não!

Eu sou mulher sim, MAS SOU MINHA!

O meu corpo me pertence, assim como as minhas escolhas.

Da próxima vez, o grito vai ser maior!

 

A vergonha vai ser maior!

Talvez assim vocês MACHISTAS se coloquem em vossos devidos lugares.

Eu tenho idade pra ser filha, neta, irmã, bisneta, namorada, esposa…

E mereço respeito tanto quanto elas.

Se não és capaz de respeitar nem uma mulher que vai ao mercado num domingo à tarde, A QUEM RESPEITARÁS?

Eu não nasci pra ser boneca pra estar sempre sorrindo

E prender o choro e a náusea de um assédio.

Eu NÃO sou a sua boneca

Eu não vou parar.

NÓS NÃO VAMOS PARAR!