E quando elx chorar?

Cuidar de si é um desafio. Da infância à fase adolescente/adulta, somos cuidados. Nossa mãe dá comida, remédio, atenção, bronca, cobrança, roupa limpa, resolução pros problemas. Nosso pai às vezes cuida, mas sempre só olha o que já é suficiente para entendermos o recado. A escola cobra notas. Pelo menos a dos outros. A minha só existia. E de certa forma vocês acabavam cuidando da matéria. Hoje me dei conta de que estou cuidando de mim. Estava fazendo comida e me veio isso. E como é estranha essa tarefa. Como é difícil lidar com alguém tão exigente, oscilante e reclamão. Como é trabalhoso me deixar satisfeito. Quando estava trabalhando, queria estar na universidade. Agora estou. Mas vivo vendo editais de concurso. Queria um resultado rápido pros meus investimentos. Sempre trabalhei e todo começo de mês recebia uma recompensa pelo meu empenho. Estudar é um investimento à longo prazo. Quero que além de notas meu esforço vire cédulas, e muitas de preferência. Estou aqui, mas queria estar lá. Como lidar com essa falta de lugar permanente? Como me fazer entender que é pra ficar e que escolhi, aqui e agora? Que eu preciso cuidar da minha vida, realizar todas as tarefas envolvidas nela, pois minha mãe não está aqui nem pra esquentar o leite sem nata. Eu reclamo por não ter um namorado. Outro dia estava pensando: o cara que é exatamente como pensava que devesse ser meu namorado, me paquera, gosta de mim, e eu nem dou uma chance pra nós dois. Pensando no porquê de sermos assim, me vem à cabeça que o tempo todo estamos fugindo de quem somos, com todos os defeitos, qualidades e odores. Que estar noutro lugar, querer ser outra pessoa, e sentir tédio nesse mundo tão sem graça, só são sintomas da nossa falta de habilidade de sermos cuidadores de si. De nos “auto-ninar” frente aos “choros” da vida, até dormir. E essa falta, com certeza decorre da ausência de contato que tivemos com nós mesmos. Somos desconhecidos, e por isso queremos alguém que nos conheça tão bem. Queremos terceirizar essa tarefa. É mais cômodo. Mais arriscado também. Parece clichê, mas suportar a própria companhia e se conhecer são exercícios que resolvem sua solidão, sua monotonia e sua falta de vontade de levantar da cama. Pelo menos eu penso. Hoje meus pais ainda estão vivos. Mas é só um estado. Logo passa. Com o passar do tempo, minha emancipação será plena. Serei oficialmente meu próprio regente, e ai nem olhar sugestivo de aprovação ou reprovação haverá mais. É triste, mas honesto.

De um sábado (à tarde) qualquer

Não é a solidão que tá matando, e sim a condição de ficar sozinha pra fazer mil obrigações acadêmicas. Não sei se dá pra entender, mas tá muito pesada a atmosfera aqui… é muita saudade misturada com cansaço mental, necessidade de férias, responsabilidades e vontade de só comer e dormir o dia inteiro.
Nesses dias a saudade chega dando rasteira, mandando um dia bom pro saco, deixando a minha consciência muito mais pesada, o meu coração mais apertado, e a solidão parecendo um monstro de sete cabeças.

Eu quase cedi umas 10 vezes ao impulso de te mandar um “oi”, pra ver se tapava esse buraco do tamanho do mundo, pra ver se essa vontade de só gritar e deixar as lágrimas rolarem passa. Só queria um pouco de cia pra jogar um tempinho fora e recuperar as energias, pra você concordar comigo que a pós-modernidade é um lixo, inventar um prato gourmet, visitar a bolha de alguém. Eu só consegui olhar as suas fotos pra matar um pouco da saudade que eu sinto. Vi que você tá bem, um pouco cansadx e devia estar descansando, vendo um filme, dirigindo. Não parece justo gritar socorro com tantos km de distância quando ninguém pode fazer nada pra ajudar.

Engoli o choro, vesti o orgulho e saí.

Eu não nasci pra ser boneca

E nem pra ouvir desaforo na rua, no mercado, na faculdade ou onde quer que seja!

Eu não vou deixar de usar meus vestidos pra não chamar a atenção.

Não vou deixar de usar meu batom vermelho

Não vou deixar de andar na rua, não vou deixar de estar sozinha

Não!

Eu sou mulher sim, MAS SOU MINHA!

O meu corpo me pertence, assim como as minhas escolhas.

Da próxima vez, o grito vai ser maior!

 

A vergonha vai ser maior!

Talvez assim vocês MACHISTAS se coloquem em vossos devidos lugares.

Eu tenho idade pra ser filha, neta, irmã, bisneta, namorada, esposa…

E mereço respeito tanto quanto elas.

Se não és capaz de respeitar nem uma mulher que vai ao mercado num domingo à tarde, A QUEM RESPEITARÁS?

Eu não nasci pra ser boneca pra estar sempre sorrindo

E prender o choro e a náusea de um assédio.

Eu NÃO sou a sua boneca

Eu não vou parar.

NÓS NÃO VAMOS PARAR!

 

 

Com que caixinha eu vou?

Enquanto conversava com uma grande amiga e colega de faculdade hoje à tarde, comentando algumas coisas sobre possíveis sobre os atendimentos clínicos com crianças, sobre nossos priminhos e sobrinhos, começamos a lembrar como éramos quando criança. Dentre idas e voltas, ela comentou que a mãe sempre conta que a pequena assistia repetidamente o mesmo desenho… era tiro e queda, não piscava nem chorava, uma gracinha. Eu comentei que era quieta e bem caipira quando era criança, escondida atrás de grandes olhos e boquinha escarlate. Minha amiga se apressou em lembrar algo que eu já tinha contado mas não lembrava: eu amava brincar com caixinhas de remédio!

Tinha avós com idades avançadas e bem adoentados, e isso me rendia dúzias de caixinhas por semana. Era incrível chegar à casa da tia e já ver a sacolinha de caixinhas em cima do móvel: eu sabia que elas eram minhas, que eu poderia separá-las, cataloga-las, juntar tudo de novo, fingir que eram tijolinhos, bonequinhos e até mesmo apenas caixinhas de remédio. Acho até que isso era um pouco do reflexo do papai que foi farmacêutico por vinte anos, mas a minha querida companheira se apressou em dizer que isso era incrível.

Não pude, a partir daí, deixar de me lembrar de um dos dias mais marcantes da minha primeira infância: o dia em que tive que ESCOLHER uma porcentagem das caixinhas que eu poderia levar pra nova casa, pois não teríamos lugar pra todas, as remanescentes iam direto pro fogo  (na época essa preocupação com o meio ambiente nem tinha chegado às famílias mais comuns). E eu escolhi, cheia de dedos as mais novinhas, as que eu mais gostava, com a preocupação de fazer uma seleção bastante heterogênea pra ter pelo menos uma de cada… estabeleci critérios, e no fim de pouco tempo, já tinha as escolhidas, e sabia que agora era com elas que eu tinha que me arranjar com a clientela da nova vizinhança.

Desde esse dia, eu nunca mais deixei de fazer as escolhas da minha vida. Não sei se porque já tinha uma idadezinha e minha mãe já dava essa abertura, ou se eu fazia porque queria mesmo. E eu escolhi, para cada necessidade, a caixa do remédio mais improvável, de acordo com critérios racionais e intuitivos, mas até hoje não morri de negligência farmacológica.

De que forma será que aqueles olhos azuis e esbugalhados olhariam as escolhas que teria de fazer 17 anos depois?

Garoto(,) “não deu”

Não deu pra chegar antes

Não deu pra ir

Não deu pra esperar

Não deu pra dizer

Não deu pra tentar

Não deu pra negar

Não deu pra aguentar

Não deu pra seguir

Não deu pra não chorar

 

Não deu pra levar

Não deu pra esquecer

Não deu pra aguentar

Não deu pra segurar

Não deu pra cumprir

Não deu pra me afastar

Não deu pra abrir mão

Não deu pra ir embora

Não deu pra não te amar.