Com que caixinha eu vou?

Enquanto conversava com uma grande amiga e colega de faculdade hoje à tarde, comentando algumas coisas sobre possíveis sobre os atendimentos clínicos com crianças, sobre nossos priminhos e sobrinhos, começamos a lembrar como éramos quando criança. Dentre idas e voltas, ela comentou que a mãe sempre conta que a pequena assistia repetidamente o mesmo desenho… era tiro e queda, não piscava nem chorava, uma gracinha. Eu comentei que era quieta e bem caipira quando era criança, escondida atrás de grandes olhos e boquinha escarlate. Minha amiga se apressou em lembrar algo que eu já tinha contado mas não lembrava: eu amava brincar com caixinhas de remédio!

Tinha avós com idades avançadas e bem adoentados, e isso me rendia dúzias de caixinhas por semana. Era incrível chegar à casa da tia e já ver a sacolinha de caixinhas em cima do móvel: eu sabia que elas eram minhas, que eu poderia separá-las, cataloga-las, juntar tudo de novo, fingir que eram tijolinhos, bonequinhos e até mesmo apenas caixinhas de remédio. Acho até que isso era um pouco do reflexo do papai que foi farmacêutico por vinte anos, mas a minha querida companheira se apressou em dizer que isso era incrível.

Não pude, a partir daí, deixar de me lembrar de um dos dias mais marcantes da minha primeira infância: o dia em que tive que ESCOLHER uma porcentagem das caixinhas que eu poderia levar pra nova casa, pois não teríamos lugar pra todas, as remanescentes iam direto pro fogo  (na época essa preocupação com o meio ambiente nem tinha chegado às famílias mais comuns). E eu escolhi, cheia de dedos as mais novinhas, as que eu mais gostava, com a preocupação de fazer uma seleção bastante heterogênea pra ter pelo menos uma de cada… estabeleci critérios, e no fim de pouco tempo, já tinha as escolhidas, e sabia que agora era com elas que eu tinha que me arranjar com a clientela da nova vizinhança.

Desde esse dia, eu nunca mais deixei de fazer as escolhas da minha vida. Não sei se porque já tinha uma idadezinha e minha mãe já dava essa abertura, ou se eu fazia porque queria mesmo. E eu escolhi, para cada necessidade, a caixa do remédio mais improvável, de acordo com critérios racionais e intuitivos, mas até hoje não morri de negligência farmacológica.

De que forma será que aqueles olhos azuis e esbugalhados olhariam as escolhas que teria de fazer 17 anos depois?

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